Minha dinda

Ariane Baldasso é a primeira mulher do meu núcleo familiar a entrar para a vida política. Entrou sem pedir licença. Entrou com 1654 pessoas que depositaram nas urnas a confiança na integridade que vem de dentro dela. Faltou pouco para ela dobrar os votos da primeira eleição que concorreu, em 2016 – e que foi impedida de assumir o cargo por birras de quem faz política deixando o ego tomar as rédeas. Ela superou. Eu não. Ah, o medo que despertam a força e a determinação, ainda mais de uma mulher, nessa nossa sociedade edificada no patriarcado, nas opressões do machismo, e misógina. Será que essas palavras sequer têm significado no vocabulário de quem é oposição à quebra do status quo, das coisas como estão? Oposição que não tem a ver com filiação partidária e sim com mudanças em como pensamos e agimos.

Mesmo sofrendo com o corte, Ariane, minha madrinha de batismo e de crisma (escolhida pela minha mãe e meu pai e depois, mais uma vez, por mim), manteve-se íntegra. Inteira. Sem deixar sua inteireza ser diminuída. Como uma árvore enraizada em Carlos Barbosa, teve paciência e esperou a hora de pedir apoio à população. Pedir que não a podassem outra vez. Pedir para recomeçar, aos quase sessenta anos, uma carreira desconhecida. Queriam mais para ela! Mas quem sabe o momento e movimento certo é sempre o eu, não os outros. Ela sabe a importância de iniciar sem pompa, de servir, de ter tempo para desenvolver a intuição na nova profissão. 

Dinda é uma forma carinhosa e infantil de se tratar a madrinha escolhida para uma criança. Como disse, eu só tenho uma dinda. A Ariane. E, mesmo que eu já seja dinda de três meninas, desde cedo entendi, com a minha, a magnitude do cargo. É preciso estar perto do crescer do ser humano que te foi confiado, ser parte ativa da educação das qualidades sensíveis (como generosidade e criatividade), viver o compromisso de ser um exemplo de valores e uma boa companhia. Além do básico, como socorrer. Barbosenses, durmam tranquilamente: eu sei que Ariane será tão dedicada como vereadora como é no papel de madrinha.

Ela que me buscava na Clarabela sempre com um doce – porque sabe que aprender pode ser amargo. Foi ela quem, no hospital, não largou minha mão para a retirada dos pontos da cirurgia de correção das orelhas de abano (a otoplastia), aos meus doze anos. Foi ela também que, em julho de 2019, realizou meu sonho de participar da Festa Literária Internacional de Paraty (a Flip), no Rio de Janeiro. Caminhamos lado a lado atrás de boas palestras dos autores, dos livros em lançamento para levar para casa, de saraus e outras atividades em grupo. 

Não foi nossa primeira e nem última viagem juntas. A dinda nunca me privou dessa aproximação através de conversas, da intimidade do mesmo quarto, de saber das minhas experiências e me auxiliar com a sabedoria dela. Além da mesma árvore genealógica, de dividirmos os mesmos antepassados, dividimos memórias e nos fazemos presente uma na vida da outra. Lá em Paraty, não imaginávamos que no ano seguinte (o 2020 que finalmente se foi) uma pandemia paralisaria os eventos no mundo todo. Tampouco imaginávamos o resultado das Eleições Municipais: Ariane Baldasso como a vereadora mais votada entre todos os candidatos – e da história do município de Carlos Barbosa.

Minha dinda representa uma quebra na opinião de aceitação geral de como deve ser e se comportar uma mulher. Escolheu ser solteira. Escolheu cabelos curtos. Escolheu ser livre para viajar quando dá na telha e cabe na agenda. Escolheu não ser medida pela altura dela. Escolheu não ser mãe, embora tenha maternado quatro sobrinhos e gerações na Escola Elisa. Escolheu ajudar a comunidade através do trabalho dela. Para ser autêntica, teve que abrir as portas do seu próprio caminho, rompendo com o coletivo acostumado a anular a visão e a voz de mulheres inquietas.

Mulheres como Ariane Baldasso são o indício e a comprovação de que nós, todas as mulheres, não seremos impedidas de continuar ocupando espaços diversos, e nem seremos silenciadas. Que estamos na trajetória da paridade de gênero – quando homens e mulheres estão representados igualmente em lugares de poder. Mulheres sábias, como minha dinda, são movidas pelo impulso de tentar, tentar, tentar. De criar mais uma vez. De valorizar o conhecimento em profundidade. De consertar. Sem brutalidade, sem picuinhas.

Meu coração é dela bem antes do meu voto. Não é só o livro do município em que nasci que está sendo escrito, é a biografia da minha família. Agora, também, pelas mãos de mulheres que ouvem e protegem sua terra e os frutos: as gentes, a população, cada vida. Que mulheres como dinda Ariane, como Bea (primeira vice-prefeita da cidade!), Lucilene (primeira vereadora reeleita) e a vereadora Regiane, recoloquem o feminino na centralidade que historicamente nos foi podada.

Para Ariane, não desejo sorte. Desejo coragem. Avante, dindinha!