Mindful o quê?

De Sêneca (filósofo romano que viveu dois mil anos atrás) ao “homem mais feliz do mundo”, como um simpático jornalista chamou o monge budista Matthieu Ricard (francês, hoje com quase 75 anos), passando por tanta gente decidida a explicar o sentido da existência humana, parece haver um ponto de trégua, um consenso: a essência da vida é estar profundamente presente no que quer que você faça. É estar aqui, agora. Em cada palavra que você lê, em cada respiro que você dá. É praticar a presença absoluta em todas as atividades do dia a dia. Se você for lavar louça, apenas lave a louça. Se você for comer, coma. Sem televisão, sem engolir e nem saborear. Vai levar o cachorro passear? Caminhe devagar, deixando o corpo se movimentar passo após passo.

A tradução mais utilizada para mindfulness, em português, é atenção plena. E você, em alguma revista popular, em algum programa de televisão sobre viver bem, já deve ter se deparado com o palavrão. Ficou horrível em inglês e pouca gente sabe o motivo para ocidentalizar o termo sati, por exemplo, que vem do budismo e que seria tão mais fácil de falar.

Não gosto de atenção plena. Prefiro presença mental. Estar atento pode ser facilmente confundido com manter-se em alerta, em defesa. Para os fãs do seriado Friends, atenção plena pode soar como unagi, um conceito japonês que o personagem Ross define como um estado de consciência total, em que a velocidade de reação é tão rápida que funciona como um sexto sentido. Fato é que em toda cultura (e nas mais diversas religiões), práticas contemplativas fazem parte da busca por sentido e bem-estar. Como Jesus, que ensinava a diferença entre orar e meditar – e meditava porque precisava pausar para olhar para dentro e desenvolver a calma. Ou Maomé, que saía para meditar sozinho nas montanhas e, com quase 40 anos, segundo a liturgia islâmica, achou que estava enlouquecendo quando recitou os primeiros versos que deram origem ao Alcorão.

Presença absoluta só acontece no aqui e no agora. Por isso, a prática consiste, basicamente, em retornar sempre para o momento presente. A sua mente vai fugir porque é da natureza da mente. Ela não gosta do desconforto de alguém (você) observando ela, notando sem julgar, para onde ela vaga ou foge. A mente gosta do canto dos passarinhos. E ela vai querer se agarrar nele. Ouça, mas não se apegue, não pense “um pássaro cantou lá fora”, não coloque um eu no pássaro, dizendo dentro da sua cabeça “nossa, que canto bonito que eu estou ouvindo, será um canário?”. O som do canto nos atravessa sem deixar rastros – como uma nuvem que passa pelo céu sem se fixar. Surge e desaparece. A mente, como o céu e o mar e a vida, muda o tempo todo. Não podemos cessar as mudanças. O que podemos é treinar a prática de voltar: de trazer a mente de volta para o momento presente. Aqui, agora. Só isso que temos. O resto é temporário, expectativa, empréstimo.

O que acontece a curto prazo? Sensação de bem estar. Mas com o tempo, vem a serenidade: uma sincronia entre sentir-se em descanso e, também, com um tipo mais profundo de realização. Assim, fica mais fácil evitar o sofrimento desnecessário que vem com a ansiedade das falsas urgência da rotina moderna. Quando você está absolutamente presente, não há lá e nem aqui. Nem o que senti ano passado (que é uma memória, e não um sentimento, já que as sensações acontecem no corpo, e o corpo está sempre no momento presente) e nem o que sentirei ano que vem, quando já estivermos todos vacinados e podendo nos abraçar (uma imaginação). A presença absoluta é agora. E agora. E agora. Coloque a mão no peito, na altura do coração. Está sentindo?