Zezé

É praticamente impossível chegar imune aos 30 anos sem que o assunto maternidade seja o protagonista de várias conversas. Para ser mãe, não é necessário viver uma gestação. Mulheres que não querem engravidar e parir são plenamente capazes de aprender a maternidade. É um engano que quando nasce um bebê, nasce uma mãe. Se assim fosse, não teríamos ainda bebês abandonados e crianças sofrendo maus-tratos, justificados como prática disciplinadora.

Uma mãe adormecida não mora dentro das mulheres, aguardando apenas os meses de útero recheado para despertar e, como um milagre, estar pronta para as adversidades, ter resposta para as mil dúvidas e, bum!, maternar com inteligência emocional. Quando nasce um bebê, o que nasce também é a possibilidade de discutirmos, enquanto sociedade, o que realmente uma mãe (ou quem quer que vá cuidar dessa nova vida) precisa. Alguns itens da lista: espaço para aprender, acolhimento das próprias sombras, suporte nos momentos de privação de sono. Não é entupindo a casa de brinquedos que se demonstra a vontade de amar.

Como educar através do exemplo sem ter a certeza que se é uma pessoa exemplar? Como ensinar um ser humano totalmente dependente, por anos, a se tornar uma pessoa equilibrada para o viver? Como aconselhar ao autoconhecimento sem que a criança cresça pensando que, por saber traduzir o que quer, tem que satisfazer os próprios desejos o tempo todo? E, a questão-chave: em um meio intolerante, obcecado por julgar, como não permitir qualquer tipo de violência como método de “aprender uma lição”? Como falar sobre comunhão e praticar compaixão?

‘O Meu Pé de Laranja Lima’ é o livro que deu fama para o carioca José Mauro de Vasconcelos, tão popular quanto o gaúcho Érico Veríssimo e o baiano Jorge Amado. Li a história do menino-personagem Zezé quando estava no Ensino Médio. Foi o professor de Religião que solicitou a leitura. Para aquela turma de colégio particular, formada por alunos de classe média alta, a gente precisava do Zezé para nos mostrar o que é não ter acesso a uma infância privilegiada. Para valorizar a oportunidade de estar dentro daquele ambiente, em segurança, diariamente estimulados ao conhecimento. Para entender o que significa nascer numa família pobre, no nosso país de crianças que aprendem a falar e a pedir esmola, quase ao mesmo tempo, para garantir o que comer.

Só fui entender o recado agora, que finalmente reli o clássico. Nenhuma criança merece ter 6 anos e ser Zezé. Ter que usar a imaginação como escudo para suportar as punições absurdas que nós, adultos, banalizamos. E que ainda aceitamos a tese de que uns tapas “corretivos” não doem. Se não marcar o corpo da criança, vai marcar a alma. Vai destruir a essência, a inocência. Vai colaborar para a gente continuar nesse mar de incompreensão, de agressões mascaradas de vontade de ensinar.

Zezé sonhava acordado para fugir da dura realidade de ter tão pouco. Suas dores, sua solidão e o enfrentamento precoce do sofrimento gerado pela desigualdade, não é para nos poupar. É uma maneira brutal de nos fazer pensar na covardia de como o menino é castigado por ser… criança! Infelizmente, não é traço do fim da década de 1920. É um comportamento persistente dos adultos – biologicamente munidos para a reprodução e emocionalmente despreparados para educar.

Quando minhas amigas engravidam, não saio comprando pequenas roupas. Pergunto sobre os medos. Falo sobre a simplicidade e economia do quarto montessoriano. Escuto o plano de parto, acompanho nos exames pré-natal, assisto junto o curso sobre negligência obstétrica. Uma mãe precisa de amigas dispostas, senão ela murcha e desiste. E um pai, definitivamente, não precisa de uma caixa de charutos. Chame-o para um papo e sugira informações sobre o puerpério, já ir ajustando a agenda, ler sobre aleitamento e introdução alimentar, participar de grupos de disciplina positiva e parentalidade consciente. O mínimo, o básicão.

Nenhuma criança merece a inaptidão à sensibilidade e a desinformação dos adultos que cuidam e rodeiam ela. E nenhuma criança deve acreditar que “mamãe é muito boa, só me bate com pena e devagar”, como Zezé – que não mente nunca: a humilhação doí mais que a própria dor.