Tratamento precoce

Queria escrever sobre o auge da pandemia no Brasil, compartilhar com vocês os relatos que estou recebendo dos colegas que estão na linha de frente da ciência, dentro dos laboratórios, fazendo tripla jornada de trabalho para avançar no conhecimento sobre o coronavírus. Queria falar que, também eu, acredito que o total confinamento social, o famoso lockdown, é um protocolo de isolamento extremo – que atrapalha a população (principalmente os que estão em situação de pobreza). Mas que, no colapso atual, é eficaz para frear a propagação e transmissão, diminuir as lotações máximas das UTIs, aumentar os testes, rastrear o contato, acomodar os mais vulneráveis e acelerar a imunização. Não é simples. Não estamos conseguindo nem o básico.

Gostaria de contar que perdi minha psicóloga (38 anos), um ex-namorado (35), uma amiga enfermeira (32). E que acompanhei a dor de uma colega de mestrado que, em uma única semana, viu partir a mãe, a avó e o irmão mais novo. Sem tempo para últimas palavras ou sequer uma despedida silenciosa. Diante de tanto sofrimento, acho corajosa a estratégia de fugir da realidade através de notícias rasas, senão falsas. Ou de inventar um cenário mais favorável para conter os medos. Ou de achar culpados, como se ajudasse o coletivo. É preciso coragem para escapar, não se abalar. Sofrer não é inteligente, mesmo que ensine.

Trabalhar como neurocientista significa que eu estudo o comportamento humano, diariamente pesquisando os nossos porquês. As forças que moldam e motivam o jeito como pensamos, agimos e nos relacionamos. Quando expostos ao estresse agudo, recorremos (antes mesmo de termos segundos para identificar o que está nos causando a sensação de ameaça) a uma das seguintes reações: brigar, fugir ou paralisar. É algo que herdamos dos animais, motivando que a gente decida com velocidade como se defender. Oscilamos entre os três. Depende, por exemplo, da carga mental do dia e dos traços de personalidade. Porém, é possível se reconhecer mais em um padrão. O meu? Eu brigo. Aliás, eu engajo. Ciente da minha intolerância à intolerância.

Para suportar não me alienar, adotei uma cachorra, antes dessa bomba viral explodir. A Camomila chegou em casa só no início de abril, depois do desmame, já na pandemia. A cadela foi estratégia de longo prazo para cooperar com a minha saúde mental. Camô, sem querer, acabou me protegendo do redemoinho de tristezas que estamos vivendo no nosso país; esquecer a ruindade das desigualdades e a brevidade da existência. Um calmante em forma de filhote vira-lata. A cã com nome de chá me deixou sã nas manhãs em que levantar não me parecia uma opção. Trouxe paz e agito para um lar desacostumado com uma integrante de quatro patas. Contrariando todas as orientações, como o presidente brasileiro, cometi o maravilhoso erro de deixar a bicha dormir na cama comigo. Nas noites de insônia, sincronizo a respiração com a dela para passar a ansiedade. Nas tardes de foco no trabalho, ela é o alarme de pausa – sair para uns minutos de caminhada, mexer o corpo para jogar a bolinha longe, com os pés descalços na grama. Minha instrutora de bem-estar.

Queria escrever sobre o auge da desgraça no continental verde-amarelo-azul. Do filme de horror que está nas ruas; dos acovardados nos espaços de poder; dos heróis da saúde; do tormento emocional de presenciar quem se ama agonizando sem oxigênio. Mas a Camomila não deixa. Está com as patas no teclado, bloqueando a tela, me lembrando de sair para pegar ar fresco. Ver o sol se pôr. Agradecer que, mais hoje, não estou entre as 260 mil vidas que deram tchau pra Terra. Latindo na minha cara para me despertar da inércia que esse enorme fracasso comunitário provoca no esqueleto de quem sente. E eu sinto muito. A Camomila está sendo o tratamento precoce para as doenças da alma, que matam ainda em vida. Melhor que hidroxicloroquina.