Doença do tempo

Bem no centro do seu cérebro existe um relógio do tamanho de um grão de arroz. É parte de uma estrutura chamada hipotálamo, responsável por organizar os sistemas do complexo organismo humano. Esse pequeno morador da sua cabeça é extremamente ágil em ler os sinais do corpo e notar se algo precisa mudar para reestabelecer o equilíbrio interno – agindo sobre a regulação do apetite e da sede, da temperatura corporal e do ciclo de sono, por exemplo. É, também, encarregado de perceber a luz. Sim, a luz. Do sol da alvorada ao entardecer e da presença da lua.

O conhecimento sobre como as escolhas que fazemos ao longo da vida se expressam no DNA (o “manual de instruções” que sincroniza o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos, inclusive nós, humanos) é vasto. Mas uma descoberta recente é que fazer exercício físico, comer bem e dormir com qualidade não é suficiente para aguentar o descompasso das rotinas agitadas que temos. A realidade é que, para a maioria de nós, o dia se resume em trabalhar muitas horas, comer em poucos minutos e dormir mal. Fazemos tudo isso, claro, grudados em algum relógio – preocupados com uma longa lista de pendências a terminar, compromissos a cumprir e boletos para pagar. É a doença do tempo. 

Os humanos se esqueceram, há séculos, que não estamos isolados da natureza. Somos movidos pela natureza. A natureza está em nós. E os piores sintomas físicos que experimentamos são consequência do moderno estilo de vida impausável. A agenda adotada não bate com as necessidades do corpo que habitamos e que é totalmente ligado ao ritmo circadiano, o período de 24 horas que orienta o ciclo biológico. Até as células carecem de luz e de escuridão para executarem suas funções mais básicas. Para você entender: precisamos de nutrição, de movimento e de descanso. Porém, precisamos fazer tudo isso em sincronia com o ritmo da natureza que somos e pertencemos. A sabedoria ancestral sabe que não existe separação entre o eu e o todo; somos uno, interdependentes, ligados por uma relação recíproca, mesmo quando invisível ou não-consciente. Ao nos separarmos do tempo da natureza, adoecemos.

A medicina ocidental, diz um autor que gosto muito, “equivale a levar o carro ao mecânico para consertar”. Procuramos por médicos com o pneu já estourado, murcho. Pouco do nosso tempo é dedicado a analisar o estilo de vida em que crescemos e que, sem questionar, mantemos até a aposentaria ou até morrer. Na tentativa de evitar mais riscos para nós mesmos, promovemos a ansiedade (afinal, quem se importa com conscientização, né?), mostrando que as chances de algo ruim acontecer podem ser altas caso você faça tal coisa nociva. São inúmeras as indicações sobre como prevenir problemas de saúde. Sabe a foto do verso da carteira de cigarro, com o pulmão podre, o pé gangrenado e do homem triste porque brochou? Pois é. Não dá certo. Se seu sistema está acostumado a receber nicotina, vai fazer você se comportar com a finalidade de manter tudo igual ao que sempre fez. Mudar é trabalho pesado. Repensar hábitos não é fácil. Reconectar-se com a natureza e os ensinamentos que dela vem, também não. Mas adoecer é.

Cada pessoa deveria criar o melhor cronograma de atividades diárias que funciona a seu favor, que seja motivo de saúde e energia. Existe um campo novo de estudo, a cronobiologia, que visa difundir a ideia de que a culpa não é sua: é dos seus horários. É de não conhecer os horários dentro de você – e seguir radicalmente os estabelecidos fora. Ter um médico para recorrer quando o motor pifa é bom, repara os danos. Melhor ainda é se dar a devida atenção, se estudar, observar o seu próprio relógio tique-taque-ando, evoluindo. É não esquecer de conhecer seu verdadeiro tempo.