Ânimo da alma

Não começou num momento específico. Foi uma transição bem gradual. Um gotejamento constante de dúvidas, desamor, desconforto. As pessoas a minha volta notaram minha irritabilidade. E eu percebi a minha inabilidade de achar calma, ou satisfação ou realização na minha rotina. E quando a gente percebe esses sintomas, não é preciso ser um gênio para reconhecer que algo está errado. No início, recorri às atividades conhecidas para tentar me fazer sentir melhor: exercício, mudar de ares, leitura, terapia, distração com amigos, regular a alimentação. Ajudou bem pouco. Demora para aceitarmos o que está faltando. Hoje, eu sei que o que me faltava era fé.

Eu perdi a minha fé. E, sem ela, o que resta? A solidão e o vazio de encontrar em si mesmo uma desolação assustadora, um silêncio fatal, melancolia pelo que poderia ter sido. O oposto de encontrar os milagres diários da sabedoria da natureza, o êxtase da divina criação, o plano e o propósito de Deus. Seja qual Deus for o da sua escolha. O que eu estou tentando dizer é que, só recentemente, admiti que a solução para os nossos problemas mais profundos, eu acho, não está na curiosidade e coragem de explorar, na engenhosidade das novas tecnologias, nem no avanço da ciência, por exemplo. Está aqui dentro. Na cabeça, no peito, nas vísceras, ao nosso redor. Onde quer que a fé more. Precisou uma boa dose de desespero para eu pedir por ajuda. Ajuda para reencontrar minha fé. E é com muito respeito que venho perguntar para vocês, agora: Como está a sua fé? Dormente, presente ou intensa? Como você tem cuidado do seu espírito?

Assim como a luz de uma vela aquece e ilumina, a fé é a luz interna que nos mantém quentes e acessos. Uma chama de serenidade para passar pelos desafios mundanos. Acender a alegria de dentro não é ignorar os problemas que estão acontecendo. É combustível, força vital, para mudar o que podemos e trabalhar pelos nossos sonhos. A atividade cognitiva humana pode ser fortalecida, revigorada, sem a necessidade de uma fé cega – mas conhecendo a natureza intensamente espiritual de processos interiores anímicos, os pertencentes à alma. Sabe-se tão pouco sobre “o oculto” em relação ao corpo, à conexão com o sistema nervoso. Um diálogo que, se envolver ciência, é inviável de acontecer em parágrafos. Mas é falho esse impulso de tornar insignificante o desconhecido, o não-familiar, o mistério que derruba o ego. A ciência toca na fé para aprender sobre humildade: tudo que, talvez, não esteja ao nosso alcance sequer compreender.

É sobre nutrir a fé e confiar: a fé é um machado para quebrar o mar gelado dentro de nós e parece se apresentar para as pessoas de todos os lugares do mundo, no momento certo para cada um, nas mais diferentes formas – para ser melhor percebida e abraçada por quem a está recebendo, arrancando uma resistência teimosa e danosa da nossa raiz. A fé está grudada em nossas almas e todos temos um profundo desejo de conhecê-la, de sermos transformados por ela, de crer na bondade, na simplicidade e numa outra amplitude do amor que ela nos desperta. A fé é a melhor amiga até de quem não tem amigos, oferecida por Alguém Maior que mora no todo do universo e na essência do que nos torna vivos.

Tinha uma vaga ideia dela, da fé. E pouca experiência. Foi preciso me soltar da arrogância científica, também uma forma de aprisionamento – tanto quanto as regras humanas construídas em nome da religião, que buscam mais doutrinar, fazer uma releitura e incluir na receita rigidez, daquilo que grandes almas vieram nos ensinar, do que religar a fé. Mesmo na desesperança, ter horas de plenitude. A fé que eu estou conhecendo não é submissa e está sempre em movimento. “Como você consegue acreditar nisso?”, me perguntam. Me permitindo abrir a porta, olhar cara a cara, para essa presença reparadora de tristezas e a importância invisível da fé. Jesus nasceu de um útero feminino de fé e teve uma vida de fé. Uma feliz ressureição da fé para nós. Que a gente consiga chamar com o coração o que não vemos, porém somos capazes de sentir.