Dose boa de inveja

A inveja é uma atividade mental que é inevitável. Se for bem usada, pode ser uma excelente fonte de autoconhecimento. Diga-me quem você inveja que te direi as qualidades que você admira. É um exercício que, para começar, pode ser feito por escrito. Sempre que alguém te incomodar, por algum motivo que você desconhece, ou que não consegue explicar – ou justifica de uma forma vaga, até boba, pare e faça. A análise da sua própria inveja. Para começar, admitir sentir inveja de alguém é um desgosto desconfortável por si só. Permitir, em voz alta dentro da própria cabeça, deixar esse sentimento controverso se expressar, é assustador. A inveja é uma angústia. Às vezes, é até mesmo raiva. Beira um pouco de ciúme e um pouco de ambição. Por definição, é algo que evitamos reconhecer: não gostamos de observar em nós mesmos, de permitir que essa fragilidade humana ganhe um significado positivo – de transformar a inveja em aprendizado sobre si.

As invejas que eu ou você sentimos não são o desejo de ter o que as outras pessoas têm: são as qualidades que alguém possui e que gostaríamos de cultivar, de ter também. São as conquistas que tiveram coragem de trabalhar para obter; são admirações não-ditas, contidas, mal direcionadas. A inveja é um comparativo: o que, em especial, você está sentindo falta e projeta no outro como “se eu tivesse isso, seria uma pessoa completamente satisfeita”. Uma sensação de segundos, uma provocação mental. Pare para refletir: o que a pessoa transmite que te incomoda? Afinal, você não quer a vida dela toda, de A a Z, para você. Você quer um pedaço, algumas partes, que admira.

Recentemente, pesquisei sobre o contato que tiveram Jackie Kennedy e a rainha Elizabeth II, depois de ver no seriado The Crown (uma produção original da Netflix que mistura fatos históricos, ficção romântica e uma crônica biográfica da vida íntima da monarquia britânica), a soberana sentindo inveja da primeira-dama dos Estados Unidos. No capítulo, que se passa em junho de 1961, John e Jackie Kennedy visitam o Palácio de Buckingham e se reúnem com a rainha Elizabeth II e seu marido, o príncipe Philip (que morreu no dia 9 de abril, agora), alguns meses após o início do mandato do presidente americano. As duas tinham quase a mesma idade – e histórias bem diferentes. Enquanto vemos uma rainha discreta, introvertida e treinada para a diplomacia, Jackie está no auge da sua fama. Era considerada um ícone da moda (seu nome é, até os dias atuais, quase um sinônimo de estilo) e uma referência de comportamento “sexy sem ser vulgar” para as mulheres da época. Jackie também era muito inteligente. Teve uma educação acadêmica excelente, chegando a concluir graduação e ter feito intercâmbio na Sorbonne, principal universidade de Paris. Os elogios ao seu intelecto, sua postura carismática e sua elegância, parecem incomodar a rainha – que é ninguém menos que a mulher mais rica e poderosa do mundo.

Elizabeth II teria aprendido algo do breve relacionamento cordial: invejar Jackie, inconscientemente, acendeu nela uma força para ter coragem de tomar atitudes que ela se julgava incapaz ou impedida. Foi movida pela admiração pelas qualidades que Jackie tinha, como encantar líderes políticos e ser o centro das atenções em eventos que precisava exercer sua influência, por exemplo, que a rainha quis desenvolver, da sua forma, tais habilidades e virtudes nela mesma. Sabendo que a vida de ninguém é perfeita nos bastidores, na privacidade, no convívio.

Invejar não é errado. O que você faz com a inveja, pode ser. Pegue um papel e escreva, sem se punir. De quem você sente inveja? Quais as conquistas da pessoa que você inveja? Quais as partes positivas dessa pessoa que você inveja, mas que, no fundo, não gostaria verdadeiramente de ter também, que não se importa tanto? E quais as partes positivas que você gostaria de poder “roubar” ou “copiar”, despertar ou fortalecer em você? Use a inveja a seu favor. Agradeça, mentalmente, quem te estimulou tal autoconhecimento, e segue o baile.