Lavorare stanca

A primeira vez que a pichação com essas duas palavras me chamou atenção foi em uma manhã apressada, andando rápido pelas estreitas ruas de Bologna, no norte da Itália. A cidade é agitada pelos estudantes da mais antiga universidade do mundo, e eu estava ciente dos protestos de um grupo de jovens-adultos, na região, alertando para a dificuldade em cumprirem com as demandas acadêmicas e ainda terem fôlego para a carga horária da indústria ou do comércio, onde conseguiam seus primeiros empregos e um pouco de independência financeira. Por isso, não foi estranho ler o gigante ‘trabalhar cansa’ escrito sobre um muro mais que centenário, com grafia torta e respingos da tinta em spray. Depois disso, comecei a perceber a frase em várias lugares, em diversas cidades.

Lavorare stanca. Lavorare stanca. Lavorare stanca. Por todas partes. Letras garrafais ou pequenos cartazes fixados com lambe-lambe. Não interessa o tamanho da expressão, a gente sabe que ela é verdadeira. Trabalhar cansa; até mesmo quando você é entusiasta do que faz. Cansa, ainda que você tenha o privilégio de escolher a sua atividade laboral. Cansa, inclusive se você tem o emprego que sonhou. E cansa porque, seja braçal ou seja um esforço mental, o corpo tem uma energia limitada – como a bateria de um celular, que vai minguando conforme usamos, e precisa ser recarregado. As férias como conhecemos foram inventadas na Revolução Industrial, no século XVIII. Alguns dias corridos para descansar. E como a grande maioria de nós curte? Fazendo um planejamento para executar aquilo que não foi possível fazer nos demais dias do ano. Trabalhar cansa ou a forma como vivemos a trajetória e o objetivo de trabalhar cansa?

Entre os antigos romanos, estilo de vida que domina nossa cultura em muitos aspectos, as classes nobres consideravam uma humilhação qualquer tipo de trabalho remunerado. A questão de gostar ou não do próprio trabalho era motivo de riso até o final da Idade Média. Foi só nesse ponto da história da humanidade, ou seja, menos de 600 anos atrás, que pessoas se perguntaram se era possível a união entre trabalhar por dinheiro e por propósito. Até então, os poucos instantes de satisfação eram experimentados fora do horário de serviço. A ideia revolucionária hoje é a em vigor: o trabalho deve ser, simultaneamente, uma atividade que gostamos e uma fonte razoável de renda. Pronto, temos um novo problema! – a exigência dupla que pauta nossas ambições e frustrações. Nos sentimos fracassados em agradar nossa essência criativa e obrigados a bancar nossa existência material. A vontade otimista de mudar uma forma de sofrimento (trabalhar por dinheiro, tolerando tudo), nos trouxe outra. Um evidente quebra-cabeça, um impasse.

A suposição é que somos capazes de encontrar um trabalho que não apenas suportamos pelo dinheiro, mas que apreciamos pelo senso de autorrealização que nos proporciona. Porém, como ajudar as pessoas “perdidas” sobre o que deveriam estar fazendo com seus dias? Também tem gente “se reinventando” para equilibrar melhor os próprios talentos e interesses e ser bem pago por isso. Assim como sabemos que uma criança precisa ser educada e instruída para aprender matemática ou literatura, não fazemos o mesmo a respeito da nossa vocação. Confiamos na intuição – como se fosse possível sentir, de imediato, qual a carreira, a ocupação profissional, que nos veste melhor. Não somos ensinados a reconhecer para onde devemos direcionar nossa energia e como desenvolver nossas aspirações. E podemos morrer à deriva.

Não é só trabalhar que cansa. Descobrir qual o trabalho que te representa melhor e que vai te permitir qualidade de vida, cansa também. É cansativo esse trabalho, em geral, de existir. Cheio de escolhas e dúvidas. Mas, antes de desistir, descanse – não somente nas férias.