(Não) Reclame aqui

Em uma parábola indiana, um fazendeiro que estava sempre insatisfeito com a sua colheita, foi reclamar com Deus: “Escute, o Senhor pode até ter criado tudo que existe mas, sobre agricultura, ainda tem muito que aprender! Sugiro que, por um ano inteiro, Você deixe que tudo seja como eu quiser”. O Criador concordou e assim foi: toda a natureza obedeceu o fazendeiro. O homem pediu o que pensava ser o melhor para a sua lavoura. Se queria sol, tinha sol. Se queria chuva, começava a chover. Tudo em conformidade com as ordens dele e na medida desejada.

O ano passou e o trigo estava enorme. Sem intempéries, como secas ou tempestades. Parecia um sucesso. Na hora da colheita, o fazendeiro viu que nada de grãos. O trigo estava vazio por dentro. Indignado, gritou “onde foi que eu errei? Não merecia isso, fiz tudo certo”. E Deus respondeu: “Ué, você tirou todos os desafios do caminho! Evitou tudo que te parecia ruim. Todos os obstáculos são importantes. Por isso, existem na natureza – e para todos, desde uma pequena planta até um complexo ser humano. O trigo precisa de tudo para a floração, frutificação e para encher os grãos. Sem ter a experiência completa, não originou alimento”.

Eu reclamo bastante, confesso e questiono. Faz pouco, comecei a me perguntar: qual o propósito por trás de uma reclamação sobre algo ou qual a intenção em reclamar sobre alguém? Vou começar descartando que tenha alguma ligação com fofocar e que a inclinação seja mais ao desabafo. O que a ciência sabe é que reclamar ajuda a aliviar tensões e nos faz instantaneamente sentir bem. Será que esse comportamento é inteligente, realmente capaz de resolver uma inquietação?

Reclamar é uma forma quase automática de não aceitação de algo que é, que está sendo. Uma forma fácil de expressar uma carga “negativa” mental e, poucas vezes, que trazemos à consciência – que observamos, que nos permitimos sentir, que nos damos tempo para acalmar. Reclamar é querer manter o espaço limpo varrendo a sujeira para debaixo do tapete. Uma atitude socialmente aceita, apesar de ninguém gostar do rótulo de ser reclamão. E, também, incentivada como prática de tagarelar com estranhos. Reclame da previsão do tempo, do trânsito, do preço das coisas. São jeitos amenos de achar elos em comum com os outros. Quando foi, na história da humanidade, que começamos a reclamar para despertar simpatia pelos mesmos ranços que carregamos? Quando reclamar virou estratégia para socialização e entramos nessa competição por quem tem mais a lamentar?

Defendo a psicoterapia para todos. Minha utopia é que podemos transformar o que estamos reclamando (e que, logo, tanto nos afetou!) em algo mais informativo, menos violento em direção ao outro, ou até neutro. Os tópicos que mais reclamamos são exatamente os que precisamos dar uma boa investigada. Existe, porém, uma importante diferença entre uma crítica e uma reclamação. A primeira contém julgamento, enquanto a segunda contém um pedido – mesmo que escondido. Reclamar é uma forma rasa de não verbalizar o que estamos sentido e como nos abalamos pelas pessoas e condições ao nosso redor. 

Talvez, nem tudo que a gente tanto reclama seja de fato um problema. Reclamamos por impaciência. Somos intolerantes às provocações, às contrariedades, aos imprevistos. Dado um sinal de perda de controle, de dor, de irritação, a saída parece ser rápida: reclamar. Desaguar. Para todo adulto, é evidente que grande parte da vida é tolerar dificuldades e superar desafios. Não sem sentir tristeza ou ansiedade. Mas, não existe nada de purificador em reclamar. Reclamações são queixas vazias, como o trigo do fazendeiro. Mais isolam do que são um pedido de ajuda. Mais geram desconforto do que pedem recomendações para mudanças. Uma reclamação diz muito sobre o que importa para quem está reclamando. E só.