Sozinha sem solidão

Entrevistei uma senhora de 82 anos, em plena saúde física e mental. Acredito que foi um desses momentos em que, em meio ao trabalho, temos a oportunidade de aprender sobre como levar a vida de uma forma mais autêntica. Em sincronia com quem somos de verdade. Com a pessoa que sabemos que somos, lá no fundo – e que fingimos não saber, que lutamos para não reconhecer, porque é mais confortável se encaixar nos padrões. Gravei a entrevista com o consentimento dela e compartilho com vocês o trecho abaixo, sem revelar a sua identidade. Foi uma aula de como viver bem em solitude – a vontade de viver intimamente, em privacidade, o que não significa estar isolado em estado de extrema solidão ou se sentir abandonado. Vamos lá?

Você só é livre se você sabe quem é, e se relaciona com os outros por vontade própria, e não por pressão ou por estar preso em um estado de carência.

– Mulher, 82 anos

A senhora disse que vive sozinha por opção. Existe um motivo especial para ter tomado tal decisão? Isso mesmo. Tem dias que passo o dia todo sem ver uma única pessoa, e é algo que adoro. Já me perguntaram se não tenho medo de ser encontrada morta, sozinha em casa. Isso pode acontecer em qualquer idade. Meus filhos ficam sempre querendo me dizer que sou velha demais para tudo, que devo procurar ajuda. Eu procuro, quando preciso! 95% do tempo, não preciso. E morrer todo mundo pode morrer, qualquer hora e de qualquer forma. Não me venham com essa de que velho vai embora antes só por ter vivido o suficiente para envelhecer.

E o que a senhora faz durante o dia? Como é a sua rotina? Nasci em uma família que não era fã de gente introspectiva e dada à reflexão, como eu. Eram todos barulhentos, sempre buscando distração e interação. As coisas eram sempre com todos juntos. Era uma boa relação entre nós e tinha bastante afetividade. Foi só quando moça, que casei e meu marido me proibiu de ter uma profissão, me mandou ficar em casa e cuidar para que tudo fosse perfeito para ele, que eu comecei a passar tempo sozinha. Fiquei fascinada pelo silêncio! Em poder ouvir as vozes na minha cabeça, e na diferença que fazia no meu humor. Ao invés de encontrar um enorme vazio em mim, me descobri uma pessoa capaz de passar horas prazerosas sem qualquer necessidade de falar, de barulho. A autonomia de estar só, a liberdade individual de decidir o que fazer com o meu tempo. Foi quando exigi o desquite [as separações matrimoniais antes da instituição do divórcio] e resolvi que queria viver assim. Fui uma boa mãe. Mas comecei a trabalhar fora e estudar, depois dos 35 anos. Nessa época, eu já era velha! Hoje, sou professora particular de História e dou minhas aulas pela internet. Meu dia é cuidar de mim, estudar e ensinar.

Você se sente feliz? O que é felicidade para você? Imagino que uma pessoa que esteja feliz em um relacionamento romântico, que seja um casal, pense que quem está sozinho sofre muito. Eu sou a prova viva que é possível ser plenamente feliz escolhendo a solitude. Você sabe o que é? [respondo que sim] Experimente e é um caminho sem volta. Nem um grande amor, coisa que tive, pode tirar você de você.

A senhora se importa com as críticas que recebe pela sua escolha? Não mais. Me consideram egoísta, louca, má. Mas eu me sinto feliz e tranquila. Sou divertida com minhas amigas e família. Sou engajada, me informo. Sou ativa. O afastamento social é terapêutico! Me estresso com as pessoas e causas que escolho me estressar. Entendo que cada um goste de estar sozinho em medidas diferentes. Não vou te mentir: me preocupo com os que não conseguem ficar sozinhos e não desejam momentos de solidão.

Por que a preocupação? O que há de tão bom na solitude? Tem um autor que diz “nunca encontrei uma companhia mais companheira do que a solidão”. Você só é livre se você sabe quem é, e se relaciona com os outros por vontade própria, e não por pressão ou por estar preso em um estado de carência – porque tem medo de não existir se não houver alguém para aprovar suas ações e garantir sua existência. As pessoas não conseguem viver o prazer e realização da sua própria presença. Ficam se lamentando da ausência dos outros, da distração constante que é ter outro alguém para focar. Mas a solitude liberta e é uma conquista!