Seu corpo é lindeza

O corpo humano é maravilhosamente imperfeito. É o resultado evolutivo de milhões de anos e espécies que nos permitiram sermos tão únicos na natureza. Mas, a partir de distorções que fomos criando, o corpo se tornou alvo de ataques. Julgamos, menosprezamos e agredimos nossos corpos. Inventamos uma indústria estética que nos oprime e fingimos que a preocupação é com a saúde. Um corpo saudável não é um corpo perfeito, que ganharia concursos “de beleza”, como se beleza não fosse um critério diferente aos olhos de quem vê. Pior, como se beleza fosse só o que vemos.

Convidei a Camille Baldasso, 24 anos, professora de Inglês e graduada em História, namorada da minha prima, para trazer a perspectiva dela sobre a nova relação que está experimentando com o próprio corpo. Admiro ela pela forma franca que fala sobre o assunto, pelo carinho que desenvolveu pela própria pele, exalando uma autoestima que poucas mulheres conseguem sustentar. Que exemplo importante! Te agradeço, Camille. Segue abaixo:

Eu me odiava. A forma que me enxergava era definida através do que os outros pensavam sobre mim – sobre a aparência do meu corpo. O poder de se amar é libertador.

Camille Baldasso, 24 anos

Sabe quando a gente perde a tampa do pote e tentamos fechar com outra, mas não funciona por
que simplesmente não é a tampa certa? Foi assim que me senti durante muito tempo: tentando ser uma mulher que, no fundo, eu sabia que eu não era e nunca seria. Ainda assim, continuava lutando com todas as minhas forças para caber, para usar uma “tampa certa” que não me servia. O mundo inteiro tem uma visão-padrão do que significa ser uma mulher bonita. A gente cresce querendo muito se encaixar nesse padrão. Afinal, quem não quer ser elogiada e admirada pelas pessoas ao seu redor? Todas as informações que recebemos, desde pequenas, pressupõem que uma parte das mulheres (a parte não-bonita, “as feias”) não vai ser querida, apreciada, nem enaltecida da mesma forma como as socialmente ditas como belas. Então, mesmo que seja difícil da ficha cair, é óbvio que viramos adolescentes e adultas lutando, fazendo um grande esforço, para permanecer próximas da imagem ideal – a mais ganhadora de simpatia, de interesse, que desperta desejo.

O problema? A beleza atual é associada ao físico. Somente ao físico. Uma relação direta com a forma dos nossos corpos. Eu me odiava. Odiava o tamanho da minha barriga, das minhas coxas, dos meus braços. Eu me escondia. Foi só a partir do momento em que comecei a conversar sobre isso com outras mulheres, que também tiveram que passar pelo processo de aceitar seus corpos, que entendi o tamanho da desconstrução que eu urgentemente precisava. A forma como eu me enxergava era totalmente definida através do que os outros pensavam sobre mim – sobre a aparência do meu corpo. Eu me maltratei muito e vivi uma vida que odiava, em busca de um corpo que aumentaria o meu “valor” aos olhos alheios. A oposição entre o estar gorda é o estar magra. Como se existisse um lado certo e outro errado. O conceito sobre o corpo-certo foi, aos poucos, tão devagar, tão sutilmente construído, que eu acabei acreditando.

Hoje, estou num processo longo de autoaceitação e de aprender a amar o meu corpo. Funcionalmente perfeito e fisicamente imperfeito, como a natureza quer. Preciso estar em constante alerta para não regredir. As representações que temos na mídia e o senso-comum insistem em pregar que só existe um tipo de beleza. E que, todo o resto, deve se adequar ao padrão estabelecido ou, pior, se esconder. Precisamos questionar “o bonito” todos os dias e ressignificar. Enxergar a beleza exalando em nós mesmas, do jeito como somos, sem tirar nem acrescentar. O corpo perfeito não existe. E esse amor e admiração que a gente tanto busca precisa surgir de dentro.

Quando a gente se livra dos pesos mentais e sociais e abraça quem somos por inteiro, em todas as formas, conseguimos ser honestas sobre o que realmente nos faz bem e nos permitimos viver em paz com o nosso corpo. E aí, minha amiga, a aprovação exterior começa a ser insignificante. O poder de se amar é tão, mas tão libertador, que é só o que precisamos para sentir que aqui dentro (e na imagem no espelho) mora a mulher mais linda do mundo. Você. Todos os dias. Uma lindeza.