Belas vitórias

Comecei 2021 fazendo história na minha família. Consegui, não sem muita chantagem emocional, levar a mãe do meu pai, minha avó paterna, para passar duas semanas na praia comigo. Nunca tínhamos convivido por tanto tempo consecutivo. E, eu sei, foi tão positivo para nós duas que prometemos que, em breve, terá repeteco. Quando ela foi embora, eu estranhei o quarto vazio; senti falta de descabelar os cabelos dela, logo que ela saía do banho, para ter a desculpa de poder “brincar de cabeleireira” com ela; achei a casa silenciosa demais por não escutar a voz dela, em algum momento do dia, pedindo “ô, Caroline, me alcança os meus crochês, por favor”.

Eunice Duarte, minha vó, completa 80 anos dia 16 de julho. Queríamos juntar toda família dela, que é nascida e crescida em Taquari, chamar as amigas para fazer festa. Ainda não estamos seguros para isso. Mas vamos celebrar que, apesar da sensação de formigamento em uma das mãos e da mobilidade reduzida porque a musculatura teima em envelhecer, minha vó está linda, cheia de graça, inteligente e de língua afiada, observadora e cuidadosa dos outros, com a memória narrando fatos muito bem e, o mais importante para mim (sendo bem egoísta): está respirando, saudável, e me recebendo de braços abertos, com um abraço gostoso. Ter uma avó como a professora Eunice é um verdadeiro orgulho. A nova oitentona é famosa pela sua dedicação ao ensino primário, tendo alfabetizado centenas de barbosenses na infância, e reconhecida até hoje quando desfila pelas ruas de Carlos Barbosa. Quero registrar o amor que sinto por ela e o quanto me inspiro nela.

Quando nasceu o quarto filho, uma freira perguntou se ela gostaria de continuar parindo crianças. Ela disse que não, que era mais que suficiente quatro em quatro anos de casada. Então, a irmã cristã ofereceu para ela uma invenção recém lançada: a pílula anticoncepcional. Ela aceitou na hora. O padre da cidade julgou misterioso dona Eunice não estar engravidando mais e fez questão de lembrá-la que mulheres férteis deveriam ter quantos filhos Deus mandasse. Ela riu e respondeu: “então, o próximo que Deus mandar, eu te dou para alimentar e educar, pode ser?”. O próximo não veio. E que Deus abençoe as freiras tão pioneiras quanto a minha vó no assunto controle de natalidade – era um embrião do feminismo em pequenas cidades, a “louca” ideia de mulheres decidirem sobre seus próprios corpos, trabalhos (afinal, maternar é tarefa sem folga!) e destinos.

Vó Eunice sempre me lembra que eu sou um-quarto portuguesa. Que tenho correndo em mim o sobrenome e o sangue dos Duarte, da região de Trás-os-Montes, no norte de Portugal. E, de fato, quando morei no país, percebi que tenho mais faccia de portuguesa. As minhas raízes estão no Brasil, mas a origem de uma família é antiga e extensa, e parece reativar na gente quando pisamos em terras que abrigaram nossos antepassados. E a elegância do nome? Eunice Duarte – forte, direto, sonoro. Como ela, nunca precisou do Baldasso para ser assim. Eunice, a filha da Carolina e do Alcides, vem da língua grega: “aquela que alcança belas vitórias”. Sabia, vó?

Desde que peguei meu diploma, nas visitas que faço, ela inicia o papo com a dúvida: se eu estou gostando do meu trabalho e se estou me sustentando com o meu salário. Censuram ela, que é feio querer informações sobre o emprego e o dinheiro da neta mais velha. Eu acho incrível. Nada de “como assim não quer casar? E cadê os meus bisnetos?”. Não vejo maldade em ela desejar saber se estou me tornando e me sentindo uma mulher livre, independente, responsável. Além do presente da presença, é esse temperamento falador e espirituoso a herança que ela está me deixando.

A vó Eunice não bebe, não fuma, não é viciada em jogos, não reclama à toa. E a pele impecável dela mostra isso: boas escolhas. Ela lê a revista Caras, por diversão, reza todo terço sem pegar no sono, assiste novelas no máximo volume e cantarola músicas já esquecidas. Quando eu menos espero, ela engata o braço e me ordena “vamos passear!”. Não sou burra de recusar. Um viva aos 80 daquela que acumulou belas vitórias! Um exemplo de mulher para mim – e para todas as gerações que precisam dar voz “àquelas que tudo sabem”: as nossas avós.