Nós, mulheres

A maior forma de aprisionar uma mulher é acreditar e disseminar a crença de que somos insubstituíveis, indispensáveis. Que sem uma mulher, um homem não sobrevive. E assim, por muitos séculos, a ideia central é a de solidariedade (quase maternidade) e de cooperação das mulheres com os homens. Na outra via, temos também o peso de que nós, mulheres, somos todas inimigas e que existimos para competir umas com as outras. Como podemos ver, isso tem funcionado para os homens. Os homens se apoiam uns aos outros e, tudo indica, está dando certo: ainda crescemos e vivemos com papéis secundários nos sendo sugeridos ou cobrados, com adjetivos divergentes para comportamentos similares (um homem é “um bom líder” e uma mulher é “mandona demais”, etc.) – ainda estamos correndo atrás do prejuízo e de reparação histórica a tudo que a sociedade machista no podou e diminuiu.

A luta é para nos sentirmos à vontade para sermos o que somos, sem que haja uma incessante preocupação de estarmos frustrando expectativas. Ser mulher é ser diferente desde que se nasce: e ser diferente é uma grande qualidade, jamais um defeito. Nessa causa nobre da aceitação e da conquista de direitos mais que inquestionáveis, somos nós, mulheres, que devemos ser as primeiras a estender a mão – e nunca as primeiras a apontar o dedo. Faz pouco tempo que eu descobri que quero ser a mulher que faz algo legal para outra mulher sem nenhuma razão específica para isso, sem ganhar nada “em troca”; apenas porque entendi que nós, mulheres, temos histórias plurais porém um histórico bem parecido de enfraquecimento coletivo. Tento me lembrar que com a mesma severidade com que julgo, serei um dia condenada.

Feminismo, já é hora de decorar, não é o oposto de machismo. O machismo nos levou a superioridade do gênero masculino. Nós, mulheres, o gênero feminino, buscamos a igualdade entre os dois – entre os todos. O feminismo é uma forma de não-solidão: abraça cada uma de nós na nossa individualidade e nas nossas escolhas. A luta principal de uma feminista, como eu, é pelo direito de uma mulher escolher. E, como toda revolução social, no modo de pensar e de agir, estamos vivendo longos tempos de incontáveis mudanças. Você está prestando atenção?

Você não é os seus assuntos, os seus problemas, as pessoas ao seu redor. Você está aí dentro, me lendo, e provavelmente com várias vozes falando com você mesma, na sua cabeça. Use esse momento para se perguntar: “como estou cuidando de mim?”. Os seus assuntos (o que você faz, sua diversão, suas amizades, suas atividades) não são você. Inclusive, quantas não são as vezes que adentramos ou praticamos algo pelos outros? Principalmente pelos homens. A mulher sempre teve esse papel de gravitar em torno das demandas, e das agendas, masculinas em vez de ser a protagonista da própria vida. Não se culpe, mas preste atenção e vá mudando.

Estou vendo amigas acabarem relacionamentos heteroafetivos para fazerem o que bem quiserem. Se sentiam limitadas e psicologicamente debilitadas. Estão acabando, na verdade, com a liberdade condicionada que os homens impunham em suas existências e vontades. Estão cientes que, seja como for, alguém sempre vai julgá-la pelo que você é e pelas suas escolhas. E decidiram fazer o que as faz sentir realização, o ato de pôr em prática o que as traz autoconfiança e maestria; e que a felicidade vem como uma brisa natural e não como uma imposição. Esse movimento de não se deixar constranger pelos próprios méritos ou fingir modéstia, de assumir suas conquistas com prazer, é a nossa emancipação. Só nós, mulheres, podemos exigir receber o que consideramos justo. A voz e as palavras são nossos instrumentos de liberdade. Mas, primeiro, precisamos nos apoiar e, juntamente, permitir que eu, que você, que nós, mulheres, sejamos prioridade, nos colocando no início da fila. Somos a prioridade que nos damos.