Divórcio

Em algum momento, que certamente não é quando a gente nasce, divorciamos o corpo natural, finito, de carne e osso, do corpo espiritual – que nosso vocabulário humano pouco sabe como explicar ou quais termos usar para descrever. Acredito que o mistério do início e do fim, esse interlúdio que chamamos de vida na Terra, é uma forma de constante esquecer e reaprender. Reaprender que o amor como nós, mortais, entendemos a palavra, não é suficiente. Todo amor espiritual vive para sempre, mas nenhum amor terreno pode ser mais forte que o seu oposto, o ódio, sem que primeiro seja sepultado. Transformado. Seja lá o que for Deus, o Criador, e Sofia, a Sua sabedoria, não é da vontade dele ou dela que a gente saiba sobre o fim de todas as coisas que conhecemos nessa passagem.

Nascer é uma tentativa de realizar matrimônio e não de divórcio. De que, com habilidade, paciência e tempo suficiente, cada um de nós vai achar uma forma de abranger os testes desse mundo e as experiências espirituais. Não podemos levar conosco toda a nossa bagagem em todas as viagens que fazemos, precisamos ir escolhendo as coisas que temos de abandonar. Resgatar a essência para retornar à estrada certa. Tive uma aula com um teólogo, grande estudioso do Antigo Testamento, que destacou que a origem da palavra pecado foi traduzida (do aramaico para o grego e para o latim) de forma propositalmente errada. Um pecador é alguém que se perdeu do seu próprio caminho, se perdeu da sua missão com o bem. Alguém que precisa repensar o rumo. Algumas pessoas que se dizem religiosas se preocupam tão mais em divulgar as religiões que seguem do que em estudar e refletir sobre o valor espiritual que religiões têm a oferecer. Como esse: pecar é um jeito humano de sofrer, de causar sofrimentos desnecessários (além dos que são parte normal de existir), mas sucedido ao erro, também há uma chance para corrigir a rota da própria vida. Não é um atestado de se entregar à infeliz sorte do futuro, de ter que se isolar na masmorra da própria mente. A vida inteira dominada pela tirania do passado.

Deus, para mim, é algo puramente espiritual: o espírito da luz, da tolerância, do amor em todas as formas. E é tão difícil para nossa humana mente processar tamanha grandeza que preferimos suprimir, dizer que é irracional, não experimentar. Mas a minha pergunta é: e se o “sobrenatural” realmente existe, quando foi que resistimos e começamos a nos divorciar da nossa fé? O processo de morrer acontece todos os dias, e começa antes mesmo do nascimento. Não existe “outro dia”, só o agora, todos os dias são o presente e um passo para o fim. Vivemos como bêbados, acreditando que só mais um copo não fará mal e, assim, cada dia perdendo a oportunidade de re-achar a liberdade e tranquilidade da fé – preferindo escolher prazeres instantâneos e sem significação especial.

Falar de fé soa ridículo em um mundo em que existem preconceitos disfarçados de ciência, desonestidade com cara de intelectualidade, destemor em gritar achismos como se fossem informações embasadas. É como se, falando de fé, a pessoa declarasse um estado de estagnação mental. Vamos ser francos? Nossas opiniões não são nossas. São com o que tivemos contato; uma determinada corrente de ideias que mergulhamos e nos sufocamos. O que destrói mais a alma, a corrente fértil, divertida, criativa da vida, do que a estagnação? No final, todos vamos descobrir que estávamos errados – a grande piada de tanta interpretação. Não há necessidade de continuarmos fingindo que nossa verdade é única, é a certa. Essa armadilha nos aprisiona, nos faz querer “ensinar” aos demais a nossa opção de felicidade. Estimulamos a fé como uma espécie de chantagem. Mas a fé é simples: uma sequência de momentos nos quais fazemos escolhas com amor e o mínimo de danos possíveis. Para isso, é preciso estar presente aqui, agora, e não assinar o divórcio.